Sonhei

Sonhei que estávamos num momento de
Efervescência política. Os coletivos
Desenvolvendo autonomia e autogestão,
Cansados da representação, as pessoas
Resolveram se manifestar, ocupar o lugar
Com ideias e ações a dialogar,
Gerando benéficos resultados à cidade e
À sociedade. Uma atitude exemplar
De comunhão entre natureza e humanidade.
Ninguém respirava mais o medo.
Os coletivos musicais tocavam
Músicas nas praças públicas, nas praias
Faziam sucesso espetacular, todos queriam
Ali estar e se expressar com seus poemas
E canções. Microfone ligado a
Mensagem conectada de um sentimento
A fluir. De repente toda essa autonomia
Começou a incomodar, mandaram uns
Fotógrafos/ jornalistas para vir aqui sondar,
Dominar, eles queriam então filmar,
Fotografar pra entregar. Não lhes foi
Permitido então fazer uso da imagem sem
A nossa concessão, o momento então
Privado, bolo de aniversário, não estava
Em questão. Saíram pois, incomodados.

No outro dia ao acordar, as ruas cheias
Sirene tocando da pedreira, autofalantes
Anunciando prepotentes autoridades,
Uma clara união entre governos e empresas.
As pessoas pelas ruas, militares fardados
E suas famílias, organizados todos e
Suas medalhas de honra ao mérito,
Bem passados, os uniformes, é claro,
Brancos, azuis, verdes, todos condecorados
Com seus quepes ajeitados, esposas ao lado
Gritavam: -“pela família e os bons costumes”.
Era muita gente na rua, a quadra do
Posto estava lotada, olhei e perguntei a
Minha mãe o que a minha filha estava
Fazendo lá. Ela me informou que
Convocaram uma plenária geral para
A mudança anunciar e isso estava a
Acontecer em escala nacional, em todo
Município haveria uma igual. Eu andava
Pelas pessoas e ouvia um burburinho sombrio.

Engraçado, pareciam felizes com aquela
Intervenção radical, mas o que seria aquilo?
E eu continuava ouvindo por onde passava
“pela família, pela família e os bons costumes”
“intervenção jurídico-militar”, essa não! Foi aí
Que começaram a rugir uns tambores e
O auto falante a falar que aquela
Baderna de autonomia estaria a
Acabar e o povo tinha mesmo que
Trabalhar e aceitar para o patrão
Toda a destruição de sua fauna, flora e
Mata ciliar. Sua saúde a degradar
16 horas de trabalho assalariado
Por dia, não um salário alto,
Mas aquele que caberia na economia
do país, ou seja, ricos mais ricos
ainda, pobres na miséria
e no caos, sustentando o roubo
com os ombros e assistindo a impunidade
a se calar. Escolas que ensinam o ofício das
empresas e não para a vida.
A minha vontade era
Começar a gritar diante daquela
Comitiva: -“Vão estudar história!”
Parecia que eu gritava, mas eles não
Escutavam-me, as vozes os ensurdeciam.

Inquieta eu estava a andar e
Logo comecei a me desesperar.
Pensei e falei alto andando ao meio
Dos outros: – “Como podem pensar
Da mesma forma?” Olhavam-me com
Caras de medo, outros, evitavam olhar-me.
Logo, vi minha mãe chorando e dizendo:
–Acabou! Mais uma vez eles ganharam,
Corromperam tudo e todos e assim os
Dominaram. A riqueza, o status, o poder
Os enfeitiçou. Eles querem ser os donos
Das mansões, das imensidões, agora
Está na hora de começarmos a correr
Ou então vão nos matar, isso não
Pode acontecer, pois quem ousar
Dialogar ou enfrentar a essa imposição
Será logo exilado, torturado,
Julgado e condenado. Mesmo assim
não haveria saída, porque, como
diria Paulo Freire “Não é na resignação,
mas na rebeldia em face das injustiças
que nos afirmaremos.” Fiquei
remexendo na cama, de repente abri os
olhos, o relógio marcava 7 horas, já era
hora de levantar daquele pesadelo.”

 

(25/04/2017)

Advertisements

One thought on “Sonhei

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s