Ao placar

Ao placar
Eu digo
Não posso socorrer o pescador
Não posso?
Eu digo
Mas terá que derramar o opressor.
Opressor estava sujo
Sujo de remédio
Coitada da Olívia
Foi parar no
cemitério
Cavernoso
Paradoxal
Romântica por natureza
Desregrada da
incerteza
Tediosa e óbvia
Abissal e
Soberana desde criancinha
De pijama
Na rua da amargura
Andando de um
lado pro outro
Até vomitar de horror
Do pavor
E do medo
De não escrever
Mais uma palavra
Com nexo
E noção.

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Foto: Reinaldo Bernado  / Japeri

 

Eu queria estudar
Pedacinho por pedacinho
do Brasil e sua história
Mas tamanha contradição
não vou guardar em minha memória
Seria melhor estudar o que vejo aqui em Japeri

Mas nem isso ei de fazer.
Pois sou uma humana em contradição da minha razão
E perco-me em meu fanático querer.
*

A luta de classe enraizada em mim
E eu faço o que? Se ela existe
e não me larga?

*

Açúcar
café
borracha
algodão

exportação
humilhação
exploração
escravidão

– Uma das mais bonitas histórias indígenas da América Latina
conta que os deuses maias fizeram
várias tentativas de criar a mulher e o homem
porque estavam muito entediados, os deuses,
e queriam ter com quem conversar.
Então nos fizeram de diferentes formas
e fracassaram, era um desastre.
Até que encontraram a forma de que
a gente fosse a gente, feitos de milho.
Os deuses maias nos fizeram de
milho e por isso temos todas as cores,
como o milho.
Não o milho transgênico,
nem o químico que estão vendendo agora.
Mas, antes de chegar no milho, os deuses maias
tentaram, por exemplo, fazer a mulher e o homem de madeira
e ficaram perfeitinho, mas tinham
um inconveniente gravíssimo: não respiravam.
E como não respiravam, não tinham palavras para dizer
porque da boca não saía nada.
E eu sempre pensei: se não respiravam,
também não tinham desalento (aliento, em espanhol, foi traduzido como respiração).
Para ter fôlego, é preciso ter desalento.
Pra você se levantar, tem que saber cair;
para ganhar, tem que saber perder.
E temos que saber que assim é a vida
e que você cai e se levanta muitas vezes,
e que alguns caem e não se levantam nunca mais,
geralmente os mais sensíveis,
os mais fáceis de se machucar,
as pessoas que mais dor sentem ao viver.
As pessoas mais sensíveis são as mais vulneráveis.
Em contra partida, esses filhos da puta
que se dedicam a atormentar a humanidade
vivem vidas longuíssimas, não morrem nunca
porque não têm um glândula, que na verdade é bem rara
e que se chama consciência.
É a que nos atormenta pelas noites.

Lutar por “Um mundo que seja a casa de todos e
não a casa de pouquinhos
e o inferno da maioria.”

*

E, bem, estava assim, muito triste
e saí a caminhar aqui, pelo bairro,
e era cedo, de manhãzinha.
Não conseguia dormir, me vesti, fui caminhar
e cruzei com uma menina muito nova,
devia ter uns dois anos, não mais que dois,
que vinha brincando na direção oposta
e ela vinha cumprimentando a grama,
a graminha, as plantinhas.
“Bom dia, graminha!”, dizia: “bom dia, graminha!”.
Ou seja, nessa idade somos todos pagãos
e nessa idade somos todos poetas.
Depois o mundo se ocupa de apequenar
nossa alma.
Isso que chamamos ‘crescimento’,
‘desenvolvimento’…

Eduardo Galeano