Ontem

Ontem.
Ontem percebi que podia morrer.
Morrer de dor, morrer de amor.
Quem poderia me deter?
Quem poderia fazer reinar em mim o eu
existente supremo, além de mim?
Eu não poderia contrapor quem sou.
Nem por mim, nem por ninguém.
A minha hora é minha e de mais ninguém.
À noite minha fantasia se inspira.
Me agiliza e transforma.
Faz sentir em mim, meu verdadeiro eu.
Distante do calor da manhã.
Junto as nuvens frescas e suaves
Enquanto mergulho em meus papéis
A voltar suspirar a filosofia de
Uma nova existência a partir da ciência
E da abstração.
Solidão é o que sinto.
Não vou dormir agora.
Minha alma chora angustiada enquanto
Tenho o conforto de meu próprio vazio.
Arrepio.
Não tento espreitar a morte.
Nem quero que ela reine soberana sobre mim.
Sobre minha tristeza.
Insegurança. Arrogância. Presunção.
Pra quê?
Você não sabe ver?
Tranquilidade.

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O pior disfarce

O pior disfarce
É quando você tenta em vão
Subverter sua tristeza
em felicidade.
E o seu sorriso
Nasce
torto e forçado
Na espera de
tentar disfarçar
a aparente
angústia em olhar.
E seus olhos brilham sim
Marejados em lágrimas de dor.
E por mais que você tente
Aceitar
Desconcertar o sentimento
e se revoltar.
Não dá.
Quando a tristeza te dominar
Não há muito o que fazer.
Além de querer
Suportar.
Mas quando seu corpo
Sente-a calada
Enraizada
Dominante mente
Difícil sensibilidade
À flor da pele.
E quando
A tristeza
Passa a ser sua companhia
Mais sincera
Mais singela.
Calada, ela aparece
Permanente mente
em minha direção
Ocupando o espaço
Vazio
Deixado pela minha
Solidão e
decepção de viver.
Quieta ela está aqui
ao meu lado.
E eu calado
a ouvi-la berrar.
Surda-muda ela aparece
Mas não para de falar.
É ela quem se deita
E acorda comigo
E quando vou sonhar
É ela que está aqui.

Tem no trem

Aos trabalhadores do
trem
Nós vemos
A luta
Diária
No trampo
Pesado
De lá e pra cá
Indo e voltar
No trem
A luta
Diária
Trabalha
Vai trabalhar
Uns vão
Outros voltam
E aqueles
Vão e voltam
Pendurado
Abre a porta
Entra e sai
Vem um bonde
Passa outro
Picolé, isopor, guaraná
Capa pra celular
Vende bala
Biscoito recheado na promoção
Tem lá.
Indo e volta
Volta e vem
Pesado
Tem criança também tem
Tem criança
Tem idoso
Tem senhora no vagão
Tem coroa pedindo esmola
Tem crente fazendo sermão
Tem pedido de ajuda para instituição.
Vem de trem
De trem vem
Sorriso banguelo
História singela
Da sua casa
Seu bairro
Sua rua
Tem também
Cada um tem uma
história pra contar
Umas mais tristes
Outras felizes
podem estar
o que será
que vem de trem
o que se vê?
o que se tem?

A arte que o poeta derrama

Ao expressar seu sentimento

É a arte de sentir com emoção

A razão interna mais sensível 

E mais humana que se possa imaginar

E declamar em poesia

Libertando em letras

As palavras de dentro de si.